quarta-feira, 29 de agosto de 2007

O avesso do avesso

Estou há alguns dias com o post de hoje na cabeça, mas como uma autêntica Amélia ao Avesso, faltou-me tempo.
Antes da Vi me chamar para escrever o blog, ela perguntou numa comunidade do Orkut que participamos, o que significava ser Amélia. Confesso que eu nunca tinha pensado no conceito ameliano, rs. Só sei que é dessas coisas que a gente bate o olho numa mulher e intuitivamente já sabe a resposta. Tipo beleza. Não dá para dizer que olho azul é bonito, logo, todos de olhos azuis são bonitos. Assim como ser Amélia não é apenas uma questão de trabalhar fora ou não, como chegou a ser levantado em algumas das respostas. Aliás, me surpreendi também com a diferença de significados de uma pessoa para outra.
Tudo na vida é uma questão de educação. Como já dizia Raul Seixas: "Não tem certo, nem errado, todo mundo tem razão, mas é que o ponto de vista é que é o ponto da questão". Eu simplesmente não fui educada para ser Amélia, ou seja, não cresci achando que a minha felicidade seria casar e ter filhos. Digo que seria mais simples se fosse assim, não porque seja menos trabalhoso, mas porque é muito mais fácil chegar aonde se quer quando se sabe que lugar é esse.
((((( Meus pais se separaram quando eu tinha uns quatro anos, nem lembro deles juntos, mas foi logo na época que minha mãe voltou a trabalhar. Ela era professora porque era essa a profissão aceitável para as mulheres nessa época, lá para o início dos anos 60. Deixou de fazer uma faculdade e de se tornar modelo/ atriz (não é que essa "carreira" já existia, rs) porque meu avô proibiu e ela era uma boa menina, mais rs. Depois ainda vivenciei mais dois casamentos da minha mãe, um bem duradouro, em que ela teve mais uma filha, e outro com um crápula mentiroso. Tudo o que vi e também que ela me ensinou vai no sentido de que só podemos amar alguém de verdade e ter um casamento feliz se formos independentes financeiramente. Que antes de querer casar e ter filhos, eu tinha que ter uma profissão e ser capaz de me virar com ela))))
Assim como aconteceu comigo, cada uma de nós tem um background que faz com que se opte por por um tipo de postura diante da vida. Logicamente, não cabe a ninguém julgar a opção dos outros. Em tese..... porque o que mais vemos são julgamentos preconceituosos a torto e a direito. Tenho muitas amigas que tiveram uma criação parecida com a minha e que nem pensam em filhos antes dos 40. Para mim, que já tenho uma e me surpreendi deliciosamente com os prazeres da maternidade, é inconcebível pensar em felicidade sem filhos. Mas por que não?
Como me disse uma cientista que entrevistei no congresso que falei no último post, um dos avanços das últimas gerações é que hoje em dia a mulher PODE OPTAR pela carreira. ANtigamente isso era impossível, mulher solteira e sem filho era uma pária da sociedade. Sinceramente, o mundo estaria muito melhor se as mulheres só tivessem filhos quando se julgassem realmente preparadas e encontrassem um homem disposto a dividir a tarefa da educação (mesmo que fosse no velho esquema da amizade colorida). Porque em pleno século 21, com dezenas de métodos anticoncepcionais disponíveis, parece até piada de mau-gosto quando escuto alguém dizer que engravidou "por acidente".
Gentem, helloooo, um ser humano não pode ser acidental! Como diz um amigo meu: "Vai dar merda". Tá na cara. Sou a favor do planejamento familiar sim e acho muito bom termos um ministro da Saúde preocupado em discutir esse assunto, que ainda parece ser um pouco tabu.
Mas, voltando novamente ao assunto: como uma anti-Amélia, meu sonho de felicidade era viajar o mundo escrevendo reportagens, nunca parar em lugar nenhum, poder fazer as malas e sair por aí sem destino atrás apenas de uma boa história.
Já eraaaaa... Depois que a Cat nasceu, todos esses sonhos ficaram muito pequenininhos diante da minha nova missão, que me parecia algo tão simples e natural (mulheres casam e têm filhos desde o início dos tempos, ora bolas). Mas descobri o quanto é complexo e fascinante. Continuo sim, a ter sonhos profissionais, mas as viagens andam aposentadas. Toda vez que surge uma lá na redação eu desço dos meus 1,78m e fico pequenininha do tamanho de um botão. Tá dando certo, porque desde que minha filha nasceu nunca passei um diazinho sequer longe dela. Sei que esse dia vai chegar, mas até lá eu vou me preparando psicologicamente, hahaha.
Infelizmente, se a gente até um certo ponto pode optar por ficar em casa ou ir trabalhar, os homens ainda não conquistaram o direito de serem donos-de-casa. Eles ainda não podem fazer essa opção sem ser alvo de chacota ou vistos como fracassados. É uma pena, mas acho que esse é o caminho para o futuro. As anti-amélias precisam de donos-de-casa!!!!!! Eles deviam queimar paletós, eu boto pilha, e vcs???

6 comentários:

Nas nuvens disse...

Ô Fabi,
Que delícia de texto. A gente, que escolheu a mesma profissão, sabe que as viagens com nossos filhos também podem ser imensamente fascinantes, não é mesmo?

Um beijo,
Cris

Vi e Amelie disse...

Que legal esse texto, Fabi!
Também fui criada com a idéia de que independência financeira era o primeiro objetivo a ser conquistado na vida, antes mesmo de casamento e filhos. Tanto que meu pai sempre dizia para eu não namorar antes de ser aprovada no vestibular - o que a gente mais vê por aí é menina que começa a namorar e, tendo que dividir o tempo entre o namoro e os estudos, acaba não sendo aprovada em uma boa faculdade. Só fui namorar depois dos 17, quando já estava fazendo Direito na federal.
Minha mãe sempre dependeu do meu pai financeiramente, mas nesse ano, depois de se separarem, achei o máximo vê-la correr atrás de seus sonhos. Agora está até fazendo faculdade de pedagogia! Acho que a gente tem que buscar o caminho da nossa felicidade sempre, esteja a nossa felicidade em cuidar da casa e dos filhos, ou em ter trabalhar/estudar.
Bjs!

Raphaela disse...

"O que eu quero é ser feliz", o mote é esse. Fazer o que satisfaz, tá de bem com a vida. Hoje, pra mim, felicidade é estar entre Igor e Guga e toda a família cheia de saúde. Tb cresci em ambiente de mulheres que tralharam fora a vida toda e sempre ralei, desde a época de faculdade. Mas depois que Igor nasceu me deu uma vontade de ser Amélia, fabi... agora mesmo eu gostaria demais de ser uma versão "amélia", com um marido de posses e um trabalho voluntário pra me dedicar kkkkkkkkkkkkkk! isso rende um post: as versões das amélias.
beijo!

Fabi Cimieri disse...

Pois é, Rapha. Eu não levo jeito para dondoca, mas adoraria não precisar ganhar dinheiro e poder ter um orfanato, ser uma mãezona para aquele bando de crianças, fazer muita bagunça, colocar um bando de aula legal, ajudar a mudar alguma coisa, nem que seja a vida de um punhado de crianças

Beta Paiva disse...

Uau, Fabi!
Este texto está bom demais...
Adorei esse título, eu me sinto bem assim: uma amélia ao avesso.
O meu lado amélia é o de amar a minha casa, me realizar profundamente cuidando dos meus filhos, ser completamente apaixonada e romântica, me sentir perfeitamente feliz sendo a mãe do Pedro e da Carolina e esposa do Cris, sendo mãe em tempo integral e até sentindo uma pequena inveja daquelas mulheres das gerações passadas que eram mestres na arte culinária, e entendiam toda a dinâmica de ser uma dona de casa, com tudo ( tudo mesmo!) o que esse dom implica.
O meu lado anti-amélia é que acho uma das atividades mais entediantes do mundo arrumar casa, não acho a menor poesia em organizar armários e dobrar roupas, morro de medo de panela de pressão mais que de barata, só sei cozinhar meia dúzia de pratos ( por mais adorasse ser uma cozinheira de mão cheia, tipo a D.Benta), quando estou lavando louça fico pensando se falta muito para acabar..enfim essas funções domésticas não são muito a minha praia, não. Até que me esforço, na verdade tudo relacionado as crianças eu faço com toda boa vontade e alegria do planeta ( passo blusinhas do uniforme do Pedro, lavo na mão uma peça ou outra, ás vezes faço umas comidinhas gostosinhas para eles e sei fazer um pavê que é o doce favorito do maridão e só).
Eu como você não fui criada para desenvolver com facilidade essa vocação. Porque aquela amélia da canção do Mário Lago e Ataulfo Alves é uma realidade bem distante da nossa.
O que eu gosto muito e digo que nasci para isso é ser mãe dos meus filhos. Nada me traz mais prazer no mundo que brincar com eles, ensiná-los a descobrir o mundo, participar intensamente da criação deles, viver para eles e por eles, ter a grandiosa noção que a minha maior missão aqui na Terra é entregar o que há de melhor para Pedro e Carolina. Nesse sentido sou uma mãe dos tempos antigos que quer muito participar de tudo e não perder nada.
E é o que faço: me dedico intensamente a eles e a casa sempre deixo para 2ª opção hahah.
Agora concordo contigo plenamente que os homens poderiam ser ótimos donos-de-casa. Aliás eu sempre digo isso para o meu: que ele é muitooo melhor dono-de-casa que eu hahah.
Essa foto está o MÁXIMO, adorei!!


beijos
Beta Paiva

Ps: Obrigada a vocês duas pelo convite tão gostoso de receber!
Fiquei muito feliz!:))

Lu brasil disse...

Maravilha de texto, merecia ser publicado.
Minha mãe sempre dizia que eu so nao podia duas coisas, deixar acumular calcinha suja e ser sustentada por marido...
Pode parecer machismo dela rs, mas eu entendo que ela ja sabia que eu seria um monstro e precisaria ganhar dimdim, nem que fosse trabalhando com o marido, mas serviços domesticos nao se aplicam mesmo a mim heheh.
Acho que a pessoa tem que fazer que a deixa feliz, tenho amigas que sao um primor de donas de casa, outras que o fazem por que nao tem outra saida, e por aí vai....