Outro dia na casa da minha mãe estava remexendo em memórias, revendo os meus álbuns de fotografia antigos e tal, quando de repente encontrei um livro bem interessante no meio de todas aquelas recordações.
Era um livro grande, tipo aqueles que existem atualmente da Anne Guedes, “Os meus primeiros cinco anos”. Eu me debrucei naquelas páginas antigas e encontrei vários pequenos textos que a minha mãe escreveu sobre mim até os 5 anos.
Eu li sobre o meu primeiro aniversário, meu primeiro natal, a descrição dos meus presentes de aniversário, a lista dos parentes e amigos que foram me receber na maternidade, os meus gostos, como foi a minha adaptação no primeiro de escola e até quais eram as minhas reações em passeios e carnavais.
Fui sentindo uma sensação tão boa, como se eu estivesse entrado um pouco no túnel do tempo da minha existência, de olhos abertos e trinta e um anos depois. Material fértil para qualquer terapeuta que se preza.
Foram muitos os momentos que me revi nos meus filhos.
É impressionante como essa história de sangue ultrapassa o DNA e como essas crianças que colocamos no mundo, que saltaram do nosso ventre para esse mundão de Deus, não tem como negar as suas raízes e mais cedo ou mais tarde demonstrarão milhões de semelhanças com a mãe que os pariu.
Minha mãe conta com a sua letra tão redonda e certinha como é a minha, que no meu primeiro natal eu me mostrei muito alegre, fiquei acordada até as quatro da matina e fiquei entretida com as minhas panelinhas durante todo o evento familiar. Quando li isso na hora pensei na minha Carolina, minha estrelinha boêmia que luta contra o sono, que gosta de dormir junto com os planetas, que adora uma festa e aguenta feliz e saltitante até o último segundo... nós duas somos festeiras e gostamos mesmo de dormir tarde.
Depois pulei para o meu primeiro ano escolar, eu chorei quase 6 meses, a minha adaptação foi super difícil porque eu não queria me separar da minha mãe de jeito nenhum. A minha mãe ficava escondida na escola acompanhando tudo e deveria ficar fazendo as suas anotações também, será?
No relatório dessa fase, a coordenadora da escola dizia que eu era muito dengosa, me apegava rápido aos professores e amiguinhos. Mas ainda sentia muita falta de casa e chorava bastante.Aí lembrei do meu Pedro, meu primeiro filho, com seu jeitinho todo sensível, com a sua alma tão carinhosa, do quanto choramos eu e ele na sua adaptação na escola.
Mas de tudo o que li, o que achei mais bonito foi que depois da descrição da minha festinha de 3 anos, a minha mãe dizia que eu tinha me mostrado muito feliz durante todo a comemoração, mas que ela não tinha certeza se eu era feliz, mas que ela me amava muito do seu jeito e que fazia de tudo para que eu realmente fosse feliz.
Eu também sinto essa mesma vontade com as crianças, quero antes de tudo que elas sejam imensamente felizes sendo elas quem são. Mãe é assim, nada nos deixa mais felizes e realizadas que termos a certeza que as nossas crias são felizes.
Além de todo esse resgate amoroso de ter encontrado esse caderno de recordações, fiquei pensando como é valioso o blog que escrevo para Pedro e Carolina e dos outros tantos blogs maravilhosos que leio das minhas amigas falando sobre os seus filhos.
Eu acho sensacional saber que daqui há alguns anos eles irão ler cada palavrinha que escrevi para eles com toda minha alma e coração. E, modestia à parte, acho que eles são crianças de sorte de terem saído da barriga de uma mãe-escritora, que se realiza profundamente em relatar cada segundo de suas lindas vidinhas, que trata a palavra como assunto de luxo e que tem a ingênua pretenção de deixar para eles as suas vidas escritas pelas minhas mãos.
Porque quando eu achei esse livro que a minha mãe escreveu, a sensação que me invadiu foi que eu queria ler mais e mais, queria mais detalhes, mais histórias escritas que a memória eterniza, queria que ela nunca tivesse parado de escrever...
Quais são as memórias que temos desse período de nossas vidas?
Quando pensamos na nossa infância lembramos das histórias que nossas avós nos contam, resgatamos cenários e pessoas que faziam parte de nossas vidas em fotografias antigas, às vezes temos a sorte de termos alguma bonequinha ou brinquedo favorito da época que nossos pais guardaram com todo carinho, um livrinho marcante, talvez uma peça de roupa..e isso é tudo que nos pode possibilitar resgatar lembranças desse tempo mágico e precioso, mas que raramente conseguimos nos lembrar.
Afinal quem é que consegue se lembrar de quando tinha 2 ou 3 anos?
Por isso que escrevo como quem constroí uma casa para que um dia,Pedro e Carolina descubram as suas próprias moradas.
“ Procurei-me nesta água da minha memória que povoa todas as distâncias da vida e, onde, como nos campos, se podia semear talvez tanta imagem capaz de ficar florindo...”
Cecília Meireles
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
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6 comentários:
Pedro e Carol tem muita sorte de ter os pais que eles têm. Uma mãe sensível e dengosa, um pai amável e carinhoso. As pessoas que estavam presentes naquele forró, nem devem imaginar que presenciaram a união de um casal que deu tão lindos frutos...
Que lindo o seu texto, Beta, amei!
Eu me sinto exatamente como você, também acho a Amelie uma felizarda por ter uma mãe que adora escrever e que procura manter registros de todos os seus momentos, seja escrevendo no blog, no livro de registros, no nosso caderninho (onde eu "converso" com ela... rs), como nas fotografias e vídeos. Acho que a menina tem mais de 6 mil fotos e vídeos, já são uns 8 DVDs carinhosamente guardados com essas lembranças (detalhe de mãe neurótica: cada DVD tem uma cópia extra, para o caso de algum eventual defeito futuro).
Achei que eu era assim porque minha mãe foi justamente o oposto... nada de livro de recordações, nenhuma palavra guardada sobre o meu nascimento. O que ela guardou foram os cartões que recebeu na maternidade, a pulserinha que eu e ela usamos e umas poucas fotos da minha primeira infância (até os 5 anos, tenho no máximo 30 fotos). Era tudo muito mais difícil naquela época, fotografia era artigo raro porque o filme era caro e eles não tinham mt dinheiro e, para completar, ela nunca gostou muito de escrever, apesar de redigir com perfeição tanto na letra, que é linda, como no conteúdo - organiza muito bem as idéias e jamais comete erros de português, por menores que sejam.
Mas agora vi que registro tudo não por trauma de não ter um livro de recordações da minha infância, mas porque simplesmente gosto de fazer isso, assim como você!
Acho que você também se pega muitas vezes com lágrimas nos olhos só de imaginar a carinha deles aos 20 e tantos anos, lendo tudo o que você escreveu com tanto carinho, né? Só de imaginar a cena, já fico querendo chorar! rs!
Bjs!
A minha mãe era tipo a da Vivian: Nada de livro de recordações. Pior é que nem perguntando como eu era ela se recorda direito.
Ao contrário de vcs. eu ainda não tenho ctz de que a Cat vai amar tudo o que eu escrevi, sei lá, as pessoas qdo crescem ficam esquisitas, rsrs
Eu escrevo pq gosto e pq tenho medo de não ter tempo/ memória para dizer tudo isso para ela quando estiver adulta.
A Cat tem tudo: livro de gravdez/ livro de 1 ano, álbuns e álbuns, fotos e mais fotos. Espero msm que ela goste.
Fiquei toda arrepiada lendo o seu texto, Beta. Minha mãe guarda muitas coisas da minha infância, mas não tem nada escrito sobre a minha chegada. Além de achar que o Ícaro vai gostar de ler sobre as primeiras experiências e travessuras dele, sinto uma necessidade incrível de registrar tudo sobre a vidinha dele e as minhas impressões de mãe. Parece até que passo por todas as sensações de novo quando escrevo ou quando releio o blog e outros registros que faço.
Ao ler o seu texto e os comentários da Vi e da Fabi, constato que essa deliciosa obsessão também nos aproxima de pessoas especiais.
Beijos,
Cris
Ah isso me fez lembrar as épocas de agenda-diário. Já era muito bom reler uns registros adolescentes, imagina de tempos que não sabíamos nem escrever ainda...
Beeetaaaa...que lindo!!! Que vontade de voltar a fazer o blog do Miguel!!!! E farei isso...sem dúvida um grande tesouro que estamos deixando para eles!!!
Bjs
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