
Mesmo minha filha sendo ainda tão pequena, reconheço nela diversas características minhas. Não acredito em transmissão da personalidade através dos genes, prefiro acreditar que as crianças incorporam, desde muito cedo, os hábitos, costumes e crenças dos pais, e com o tempo acabam manifestando essas características em seus próprios comportamentos.
Se fosse só o gosto por salame, o amor pelos animais e a habilidade para trabalhos manuais, eu sequer perceberia que, aos poucos, minha filha está se transformando em uma "mini-me" - como se já não bastasse a semelhança física, que é enorme! Entretanto, também percebo na "mini-me" a pior característica negativa que eu carrego comigo: o medo.
Não o medo de cobra ou de fantasma, mas o MEDO com letras maiúsculas, aquele que nos paralisa e nos impede de viver. Desde pequena, nunca me aventurei a fazer coisas arriscadas. Até de montanha-russa eu fugia, por imaginar que o carrinho despencaria lá de cima. Voar de asa-delta jamais figurou na minha lista de "coisas-a-fazer-antes-de-morrer". Nunca acompanhei meu irmão e meus primos nas brincadeiras de subir até o topo da ladeira e descer sentada no skate. Medo, medo, medo.
Ultimamente, sinto que esse medo atrapalha meus planos de diversão em família. Moramos no Nordeste, a poucas centenas de quilômetros de lugares maravilhosos no Ceará, na Paraíba e em Pernambuco. Tenho um título de turismo que me dá direito a sete diárias anuais em hotéis fantásticos do Brasil e do mundo. Mas o medo, esse meu eterno companheiro, vive a me assombrar toda vez que faço planos para viajar. De avião é um horror, o caos aéreo, o precário sistema de radar, as aeronaves sem manutenção. Tudo é pretexto para não subir no avião. E de carro? Pior ainda, nem morta! As estradas têm mais crateras que o solo lunar, os motoristas são quase todos uns inconseqüentes, só no feriado de 7 de Setembro morreram mais pessoas do que nos dois últimos acidentes aéreos ocorridos no Brasil. E assim a gente fica em casa, alugando vídeos, "existindo" e não "vivendo".
O medo paralisa, e é um mal que precisa ser combatido. Disposta a lutar contra o meu maior inimigo, enchi meu peito com uma porção generosa de coragem e decretei: esse ano será diferente. Vou viajar sim, com ou sem medo.
Só resta saber se o dinheiro vai dar!